Um roteiro prático para revisar documentos produzidos com apoio de IA, na ordem em que os erros aparecem.
Documento gerado por IA chega pronto, bem estruturado e com aparência de correto. É justamente essa aparência que torna a revisão diferente da revisão de um rascunho humano: não há trechos obviamente incompletos para chamar atenção.
O roteiro abaixo segue a ordem do que custa mais caro deixar passar.
1. Os dados são desta empresa?
Comece pelo básico, porque é onde o erro é mais constrangedor: razão social, CNPJ, endereço, setores e funções.
O que verificar em especial: se aparecem funções que a empresa não tem, ou se falta alguma que existe. Documento montado a partir de cadastro incompleto tende a preencher a lacuna com o que é típico do ramo, e o típico não é o real.
Se o documento foi gerado usando outro documento como referência, confira se nenhum dado da empresa de origem sobreviveu.
2. Todos os riscos levantados estão lá?
Esta é a verificação mais importante do roteiro, e a que exige o levantamento em mãos.
Percorra o que foi identificado em campo e confirme item a item no documento. O que se procura não é o risco descrito de forma diferente: é o risco ausente.
Omitir um perigo inventariado tem consequência direta: a empresa fica sem cobertura para um risco que ela mesma já reconhecia. Agrupar dois perigos num agente só é aceitável quando o texto trata de ambos explicitamente.
O caminho inverso também merece atenção: risco que aparece no documento e não foi levantado em campo. Pode ser uma contribuição pertinente do modelo a partir do ramo de atividade, e pode ser invenção. Nos dois casos, precisa ser verificado antes de permanecer.
3. As citações normativas conferem?
Este é o ponto onde a fluência mais engana. Abra a norma e confira:
- O número do item corresponde ao conteúdo citado?
- A portaria mencionada existe e é a que alterou aquele dispositivo?
- O prazo aplica-se ao caso descrito?
Erros comuns nesta categoria: item de NR citado com numeração próxima mas conteúdo diferente, portaria com ano trocado, exigência de uma norma atribuída a outra.
Uma citação errada não é apenas imprecisão. Ela compromete a credibilidade do documento inteiro perante quem conhece a norma, e é exatamente quem audita que conhece.
4. As medidas de controle são exequíveis?
Documentos gerados tendem a produzir medidas bem escritas e genéricas: "implementar controles de engenharia adequados", "promover capacitação continuada".
Duas perguntas resolvem:
- Alguém consegue executar isso? Uma medida sem ação concreta não vira plano.
- A hierarquia foi respeitada? Se quase tudo se resolve com EPI, a ordem prevista na NR-1 foi ignorada.
Lembre também que o inventário deve registrar as medidas já implementadas, não apenas as recomendadas. Um documento que só lista intenções descreve um plano, não um controle.
5. O documento promete o que não existe?
Verificação específica para quando o texto menciona sistemas, ferramentas ou rotinas da empresa.
Se o documento afirma que há monitoramento contínuo de determinado agente, que existe controle automatizado de certo processo ou que determinada rotina acontece com dada periodicidade, isso precisa ser verdade. Documento que descreve a empresa ideal em vez da real cria um problema novo: a divergência entre o que está escrito e o que a fiscalização encontra.
6. A linguagem está adequada ao destinatário?
Uma Ordem de Serviço é lida pelo trabalhador. Um PGR é lido por técnicos e auditores. Textos gerados tendem a manter o mesmo registro formal em todos os casos.
Vale ajustar: a OS precisa ser compreensível para quem executa a atividade, sem depender de vocabulário técnico que o destinatário não domina.
O erro de revisar apenas o começo
Um padrão observável: a atenção do revisor é maior nas primeiras páginas e diminui ao longo do documento. Como documentos gerados costumam ser extensos e uniformes, a queda de atenção é previsível.
Duas práticas ajudam: revisar por seção em momentos diferentes, e fazer uma passagem específica só para citações normativas, sem ler o resto.
Como o ChatTST apoia a revisão
No ChatTST, o documento gerado passa por uma auditoria automática que aponta inconsistências e trechos que merecem atenção, organizados por severidade. Os apontamentos podem ser corrigidos individualmente ou em lote, e é possível ignorar aqueles que, na avaliação do profissional, não procedem, com o registro dessa decisão.
Como a geração parte do inventário cadastrado, a verificação do item 2 fica mais direta: o que está no documento veio do que a empresa registrou, e não de um modelo genérico. A auditoria também confere as citações de NR contra o texto vigente da base normativa.
A revisão final continua sendo humana, porque a assinatura também é.
Conclusão
Revisar documento gerado por IA é diferente de revisar rascunho: o texto não denuncia o próprio erro. Por isso a revisão precisa ser um roteiro, e não uma leitura.
Se for para escolher duas verificações, escolha estas: todos os riscos levantados estão no documento, e cada citação de norma confere na fonte.